7 de fev de 2012

África atrai luxo


As crescentes aspirações dos consumidores africanos por fatos Hugo Boss, óculos de sol Prada e bolsas Louis Vuitton fazem lembrar a Índia e a China há uma década atrás, dizem os especialistas, mas a África ainda tem um longo caminho a percorrer até corresponder à forte procura da Ásia por produtos de luxo.
 
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África atrai luxo
 Apesar de milhões de africanos permanecerem presos à pobreza estrema, o continente em rápido crescimento já não é definido apenas pelas privações e doenças. Os vendedores de marcas de luxo estão a focalizar o pequeno mas cada vez mais visível número do que os retalhistas sul-africanos chamam “diamantes negros", ou profissionais africanos afluentes.
A população africana de pessoas cujas fortunas são suficientemente grandes para se qualificarem como “indivíduos de rendimentos elevados” foi a de mais rápido crescimento no mundo em 2009/2010, segundo o último relatório anual da Merrill Lynch e Capgemini. Claramente um grupo exclusivo – normalmente de elites do governo – que há décadas compra em Londres, Paris e Nova Iorque.
No entanto, o aumento dos rendimentos disponíveis e o desenvolvimento de novos centros comerciais significa que mais africanos já podem comprar produtos de luxo no próprio país. As economias Subsaarianas estão entre as que mais crescem no mundo. A própria região deverá aumentar em média 6% este ano, impulsionada pela contínua procura por petróleo e minerais.
Mas as grandes fortunas continuam ainda concentradas nas mãos de alguns poucos afortunados, ou seja, muitos compradores de marcas de luxo na África são “consumidores aspiracionais”: compradores que vão desbaratar o seu dinheiro num produto, mesmo quando podem não ser capazes de o pagar.
A paixão de África por marcas de luxo muito caras é mais visível nos carros. As ruas esburacadas de Nairobi, Lagos e do município de Soweto em Joanesburgo são cada vez mais o palco para automóveis Audi, BMW ou Mercedes-Benz.
Muitos consumidores pagam estes produtos onerosos através do recurso ao crédito, o que poderá representar um risco para a economia. O banco central da África do Sul tem alertado repetidamente que os níveis de dívida são demasiado elevados na maior economia do continente. O endividamento das famílias é atualmente 75% do rendimento disponível, de acordo com os dados divulgados em dezembro pelo South African Reserve Bank. Em comparação, no Brasil, esta proporção foi de 42,5% em outubro de 2011.
Os sul-africanos gastam em média 7% do seu rendimento disponível apenas nas despesas das dívidas. Durante uma recessão em 2009, os bancos foram fortemente afetados pelo crescimento das dívidas incobráveis nas unidades de financiamento de veículos.
Isabel Cavill, uma analista do gabinete de pesquisa Planet Retail em Londres, prevê que os compradores abastados continuem a multiplicar-se em África, mas muito mais lentamente do que na China ou na Índia.
Para os gerentes de lojas locais, o crescimento constante nos últimos anos tem sido notável. Há apenas cinco anos atrás, algumas lojas de gama alta no centro comercial Sandton City na cidade de Joanesburgo, poderiam passar um dia inteiro sem vender nada, de acordo com vários gerentes entrevistados pela Reuters. Este não é o caso atualmente, com alguns retalhistas a apontarem médias de 30 clientes por dia.
Mesmo os países mais pequenos que ainda estão dependentes da ajuda externa, como o Senegal, começaram a registar hábitos de compra mais generosos. Dakar alberga o centro comercial Sea Plaza de 35 milhões dólares, inaugurado em 2010, e o hotel de luxo Radisson Blu. Fruto do trabalho do empresário senegalês Sow Yerim, os dois locais tornaram-se atrações de topo e arrastam 4.500 visitantes num dia movimentado. O Sea Plaza alberga marcas como Hugo Boss, Mango e Guess, bem como pontos de venda de vestuário de alta-costura e lojas de artigos eletrónicos de gama alta.
Para além do Senegal, a germânica Hugo Boss criou uma presença em vários outros países africanos que têm sido até agora ignorados pelos grandes nomes do retalho mundial, contando com pontos de venda em países como Moçambique, Angola e Costa do Marfim.
Mas os retalhistas internacionais enfrentam muitos obstáculos em África, particularmente as fracas infraestruturas e a generalizada corrupção administrativa. «O mercado de luxo em África vai enfrentar desafios significativos para registar algo próximo à expansão da China», afirma Joelle de Montgolfier da Bain & Co. «A China é um mercado muito unificado e a África é composta por 57 mercados com regulamentos diferentes. É um pouco mais complexo fazer negócios em África», conclui. Mas estas dificuldades não parecem suficientes para deter os consumidores africanos.
 
Fonte: Reuters