27 de fev de 2012

Afegãos querem estar moda


Depois de anos de dificuldades, com invasões, guerra civil e o poder assolador do regime Talibã, os afegãos, sobretudo os homens, parecem dar agora mais importância à moda e não querem ficar atrás dos homens ocidentais, adotando cortes de cabelo modernos e jeans rasgados no dia a dia. 
 
dummy
Afegãos querem estar moda
 A paixão pela moda não é a primeira imagem que surge na cabeça da maioria das pessoas quando pensam nos homens afegãos, normalmente retratados nas reportagens de guerra como usando barba, turbantes e com AK47 como acessórios.
Mas o salões de beleza para homens na baixa de Cabul fervilham de atividade com jovens a atualizarem os seus cortes de cabelo e barba ao estilo ocidental – indulgências que os teriam levado a ser espancados ou à prisão há apenas 10 anos.
Na altura, a polícia religiosa do departamento de “vícios e virtudes” do regime Talibã patrulhava as ruas em carrinhas pick-up prendendo ou batendo nos homens e mulheres cuja aparência fosse considerada um pecado contra o Islão.
Mas desde que os Talibãs caíram do poder em 2011, na invasão liderada pelos EUA, os homens, sobretudo em Cabul, aproveitaram a nova liberdade para terem estilo ou estarem na moda. «Os rapazes de Cabul ficaram muito ciosos do seu aspeto nos últimos anos», afirma um sorridente Ali Reza, de 25 anos, enquanto coloca madeixas loiras no cabelo no primeiro cliente do dia no The Saloon.
Reza esteve entre as centenas de milhares de afegãos que viajaram para os países vizinhos quando os talibãs subiram ao poder em 1996. Aprendeu a ser cabeleireiro na Índia e regressou a Cabul quando os Talibãs saíram. «Alguns meios de comunicação social retratam os homens afegãos como pessoas zangadas com longas barbas e cabelo pelos ombros», explica. «Decidi tornar-me stylist para mostrar que nem sempre é o caso e que os homens afegãos são bonitos, têm uma paixão pela moda moderna e têm muito estilo», acrescenta.
Um interesse nos estilos populares de Hollywood e Bollywood não é novo para o Afeganistão (anteriormente um ponto de passagem obrigatório nas viagens de jovens ocidentais): simplesmente foi suprimido por mais de três décadas de guerra.
A invasão pela União Soviética em 1979 levou a uma ocupação de 10 anos seguida por uma guerra civil – e depois vieram os Talibãs com a sua brutal campanha contra tudo o que não se adequava à sua ideia de pureza religiosa.
Agora, embora as mulheres possam usar botas de saltos altos e jeans por baixo dos casacos e vestirem-se com estilo em privado, em público continuam muito cobertas – com algumas a usarem ainda a burqa. Mas nas ruas de Cabul – e, em menor grau, noutras cidades – são os homens que desfilam com skinny jeans ou jeans cortados e cortes de cabelo espetado. «Os jovens vêm cá, trazem fotos de estrelas de filmes ou do desporto da Europa, EUA ou Índia para fazermos cortes de cabelo ou de barba semelhantes», indica Sayed Mehdi, 22 anos, stylist no salão de moda Skin Deep. «Também lhes fornecemos revistas de moda para os ajudar a escolher um estilo de cabelo ou barba que os favoreça», acrescenta.
Mujtaba, 27 anos, que está a usar uma t-shirt preta e jeans com cortes, afirma que foi espancado pela polícia talibã quando tinha um corte de cabelo relativamente modesto. «Depois forçaram-me a usar um turbante preto mesmo quando era ainda uma criança», revela Mutjaba, que, tal como muitos afegãos, usa apenas um nome. Veio ao The Saloon em busca do mais recente estilo de barba. «Quero a minha barba ao estilo “Wali”», explica, referindo-se a um conhecido artista pop expatriado afegão, que usa um estilo de barba no contorno da cara, como um risco fino. «Não queremos ser menos do que os europeus e os americanos em termos de moda», acrescenta.
Embora o sudeste e o leste do país continue agrilhoado sob a insurgência dos talibãs, a capital afegã e as grandes cidades no norte e oeste disfrutam de uma relativa segurança e de um aumento no negócio da moda.
Sayed Abdulla, proprietário de uma loja de vestuário trendy em Cabul, afirma que tem de importar as mais recentes tendências de moda para manter centenas de clientes satisfeitos. «Todos os dias, jovens homens e mulheres vêm procurar as mais recentes marcas de jeans, camisas e vestidos», indica, mostrando um par de jeans justos a um grupo de homens na sua loja.
Abdulla refere que tinha uma loja de vestuário durante o regime talibã mas que apenas estava autorizado a vender o tradicional Perahan Tenban, um fato de calças e camisa largos, e turbantes. «Tem havido uma grande mudança na moda e no estilo desde então», assegura.
Em 2009, o Afeganistão também testemunhou o seu primeiro concurso de modelos na televisão – “Afghan Model” – que tinha como objetivo encontrar a top-model no país devastado pela guerra, imitando o “America’s Next Top Model”. «Pedimos a quem quisesse participar no programa para mostrar as suas roupas, os seus visuais e os seus estilos», revela Naseer Ahmad Noori, 25 anos, que juntamente com a sua esposa Setara Noori foi um dos júris. Naseer afirma que ficou estupefacto com a resposta: «milhares apareceram, a maior parte deles homens». O programa resultante teve a oposição dos clérigos do país, o que levou a uma interrupção na série mas que deverá regressar este ano, acrescenta.
«É embaraçoso quando vemos homens a vestir-se como americanos e outros infiéis», considera Mullah Naqibullah, perturbado com a nova moda, enquanto bebe chá numa loja em frente ao The Saloon. «Este tipo de vestuário é totalmente anti-islâmico e vai contra os valores afegãos. Estas pessoas deviam ser punidas para se lembrarem que são afegãos e muçulmanos», afirma. «Os talibãs saberiam lidar com eles!», conclui.
Mas apesar da reação dos conservadores, pessoas como Reza e Mehdi continuam otimistas, com a nova geração a crescer com um interesse em acessórios um pouco mais chiques do que a velha AK47 que trouxe tanta miséria ao país.
 
Fonte: AFP