5 de jan de 2012

TRADIÇÃO ROMENA NA PASSARELLE


Pouco conhecida internacionalmente, a Roménia foi o palco da apresentação da coleção do francês Philippe Guilet, batizada “Preconceito”. Saias em pele de ovelha e delicados bordados com contas brilharam na passerelle, num desfile único que misturou as capacidades de um designer com o artesanato centenário dos romenos.
 
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Tradição romena na passerelle
A mostra, que teve lugar em Bucareste, teve como objetivo contrariar alguns dos rótulos negativos da Roménia, muitas vezes considerado como um país pós-comunista do interior e monótono, mas que é, na verdade, uma rica mistura de influências latinas, dos Balcãs, húngaras, eslavas e românicas.
Intitulada “Preconceito”, a linha de vestuário de senhora criada por Philippe Guilet, que já trabalhou com Karl Lagerfeld, Thierry Mugler e Jean Paul Gaultier, vai ser ainda mostrada em Paris no início deste ano.
Os saltos altos foram inspirados no trabalho icónico “Coluna Infinita” do escultor romeno Constantin Brancusi, sob vestidos de renda delicados ou saias multicoloridas que lembram os trajes tradicionais das mulheres no norte da Roménia. «A Roménia é muitas vezes ridicularizada mas na verdade este país é o oposto do que as pessoas possam pensar», indicou Guilet, que passou os últimos quatro anos na Roménia.
O ex-diretor de pesquisa da Jean Paul Gaultier lançou um projeto cultural batizado “100%.RO” que tem como objetivo reinterpretar a herança romena. Longe dos clichés do cinzento e opressão, o designer apostou em bordados feitos por artesãos como Virginia Linul, da região do norte de Bistrita Nasaud, que têm vindo a passar os seus conhecimentos de geração em geração, adornando vestuário, cintos ou colares. «As contas que usamos para os nossos bordados tradicionais parecem um campo cheio de flores na primavera», explicou Ana Bodescu, uma das mulheres que trabalhou nesta coleção.
Em lugar dos seus trajes tradicionais, as mulheres da remota aldeia de Salva bordaram desta vez um colete tipo toureiro, um vestido preto comprido em organdi e um fato tipo tweed com fios de renda com contas. Algumas das peças demoraram muitos meses e quilos de contas a criar.
Os encontros de Guilet com os artesãos e artesãs no seu ambiente rural, onde as pessoas ainda usam ferramentas de trabalho do século XVI e agulhas em osso para bordar a pele de ovelha, inspiraram 34 criações, cada uma com o nome de uma mulher romena. Cerca de 50 artesãos locais contribuíram para o desfile, que decorreu com o pano de fundo elegante da embaixada francesa em Bucareste, decorada para a ocasião com árvores despidas, como se tivesse sido apanhada por uma tempestade de neve.
Muitas das peças tinham o cunho de Constantin Juravle, um artesão nos seus 60 anos de Straja, uma aldeia remota da região do norte de Bucovina, cuja família trabalha pele de ovelha há gerações, seguindo uma técnica guardada em segredo. Um vestido brilhante com renda metálica criada por uma família de ferreiros cujas tradições de trabalho no metal remontam a 300 anos atrás foi o destaque da coleção. O projeto «é uma combinação de modernidade e trabalho ancestral», afirmou Guilet, que sublinhou que a Roménia ainda promove capacidades e know-how que os designers dificilmente encontram em França.
Para ilustrar esta união de dois mundos, os artesãos, a maior parte dos quais raramente deixou a sua aldeia, subiram para a passerelle, lado a lado com os modelos e alguns dos designers mais conhecidos da Roménia no fim do desfile. «O Philippe veio de longe e apreciou o valor das nossas capacidades. É extraordinário que tenha mostrado o nosso trabalho», revelou Virginia Linul. «Ninguém tinha feito isto por nós antes. Agora as pessoas podem ver a verdadeira imagem da Roménia, uma que geralmente não se vê e que é muito bonita», concluiu.
 
fonte: AFP