31 de jan de 2012

MODA ACUSADA DE RACISMO. O QUE VOCÊ ACHA?



Apesar de ter lugar num país marcado pela diversidade racial, a Semana de Moda de São Paulo foi novamente acusada de promover a discriminação. Em causa estão os poucos manequins negros que desfilaram na passerelle brasileira, apesar da organização recusar liminarmente qualquer tipo de racismo.
 
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Moda acusada de racismo
O maior evento de moda da América Latina celebrou a criatividade, o estilo e o glamour brasileiros, mas relançou também novamente a questão da falta de diversidade racial, num país que é fruto, exatamente, da mistura de raças e culturas.
A Semana de Moda de São Paulo (SPFW) abriu a sua 32.ª edição para apresentar as coleções de inverno numa sala cavernosa no Parque de Ibirapuera, tendo sido transmitida em diretor pela Internet pela primeira vez. Durante seis dias, de 19 a 24 de janeiro, 30 marcas, incluindo Animale, Tufi Duek, Alexandre Herchcovitch, Glória Coelho, Fernanda Yamamoto e Reinaldo Lorenço, mostraram as suas propostas na maior metrópole da América do Sul, com cerca de 20 milhões de pessoas.
«O Brasil está a atravessar um momento privilegiado», afirmou o diretor criativo da SPFW, Paulo Borges, referindo-se ao forte crescimento do país que o colocou no sexto lugar das maiores economias do mundo.
Mas tal como aconteceu com a Semana de Moda do Rio de Janeiro, que ocorreu na semana anterior, a celebração ficou marcada por acusações de racismo ao mundo da moda brasileira devido à grande maioria de modelos serem brancos num país onde mais de metade da população é descendente de africanos.
Numa carta aberta à imprensa e à sociedade brasileira, David Santos, um frade franciscano que gere a Educafro, um grupo de pressão que luta pelos direitos laborais dos negros e indígenas, levantou a questão relativamente à SPFW. A Educafro fez mesmo um protesto à porta da sede da SPFW, onde os ativistas exigiram que o peso demográfico dos negros seja refletido em todos os aspetos da vida económica, incluindo a moda. O Brasil, que tem uma população de 190 milhões de pessoas, tem a segunda maior população negra do mundo, a seguir à Nigéria.
Visivelmente irritado, Paulo Borges rejeitou as acusações de discriminação e acusou a Educafro de tentar usar a semana de moda para publicitar a sua causa. «Este não é o local para uma discussão inapropriada (de raça)», indicou à AFP. «Este é um local criativo», acrescentou.
Em 2009, a SPFW foi forçada a estabelecer quotas que exigiam que pelo menos 10% dos manequins tivessem antepassados africanos ou indígenas. Anteriormente, apenas uma mão cheia de manequins negros estavam entre os cerca de 350 que desfilavam na passerelle – normalmente menos de 3%. Mas há dois anos, a quota de 10% para “descendentes de africanos ou indígenas” foi removida por ser considerada inconstitucional.
Borges indicou que a SPFW apela às marcas que estão na semana de moda para recrutarem 10% de “descendentes de africanos ou indígenas” mas não as pode forçar, e sublinhou que o seu grupo de moda Luminosidade valoriza e promove a diversidade e a herança de mistura de raças do Brasil.
Santos, contudo, prometeu continuar a fazer pressão, sublinhando que após uma queixa da Educafro, promotores públicos inquiriram a cidade de São Paulo e o Ministério do Turismo sobre a transferência de fundos públicos para a SPFW, que continua acusada de discriminação. Indicou ainda que a lei federal estipula que os fundos públicos não podem ser usados para eventos ou por empresas que discriminam os negros. David Santos referiu ainda AFP que os promotores de justiça também pediram à organização do evento para entregarem no próximo mês uma lista de todos os seus membros e afirmou que a Educafro planeia submeter uma ação legal contra todas as casas de moda que não promovem a diversidade.
A SPFW tem lugar duas vezes por ano, em janeiro para a coleção de inverno e em junho para a coleção de verão.

fonte: AFP