21 de abr de 2013

Festival de estilo


O arranque da época dos festivais de música, como o californiano Coachella, marca o início da busca por novas inspirações para os criadores e marcas de moda, que transformam o estilo que veem em coleções com toques de rock, grunge ou hip hop e usam estes eventos para se promoverem entre os festivaleiros. 

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Festival de estilo
 O fim de semana passado marcou a abertura da Coachella, a celebração californiana da música que assinala o arranque da estação de festivais, que vai continuar na Ilha de Wight, Glastonbury, Lollapalooza e muitos outros – e acabar praticamente antes dos desfiles de pronto-a-vestir de setembro. Coincidência? Talvez não. Hoje em dia, estes eventos são muito mais sobre estilo do que música.
Anteriormente um pequeno festival criado como uma alternativa para os eventos mainstream, o Coachella é agora dividido em dois fins de semana e inclui também festas organizadas por marcas, incluindo a Mulberry, H&M e Armani Exchange – todas celebradas por inúmeras revistas a documentar o “estilo Coachella”, celebridades (muitas vezes com as roupas enviadas pelas marcas especificamente para a ocasião) e equipas de design em busca de inspiração. 
«Não passa uma estação sem uma coleção ser definitivamente apresentada como inspirada no rock, no grunge, no hip-hop… é inevitável», afirma Judd Crane, diretor de vestuário de senhora nos grandes armazéns Selfridges. «É uma grande parte do que os designers procuram para inspiração», acrescenta.
Foi no Coachella em 2012 que a atual tendência do grunge ao estilo dos anos 90 reapareceu e inspirou as coleções para a primavera-verão 2013 de Phillip Lim e Dries Van Noten. O mesmo para o atual look hippie dos anos 70, com vestidos vaporosos, chapéus e kaftans que mais tarde foram vistos numa capa em chiffon de seda da Saint Laurent, no vestido macramé com cinto da Versace e no vestido em jacquard de algodão branco bordado da Mulberry.
Este shopping de ideias não é propriamente novo – de Mick Jagger a David Bowie, de Madonna a Lady Gaga, há muito que os músicos têm pisado o palco como se fosse uma passerelle, com os seus estilos próprios a influenciar inúmeros fãs e tendências de moda. Com efeito, a música e a moda ficaram tão ligadas que é difícil imaginar uma sem a outra. Os festivais apenas tornam a simbiose mais eficiente e mais óbvia para todos.
«Acho que a música e a moda estão interligadas», considera Christopher Bailey, diretor criativo da Burberry. Bailey não só usa os músicos como parte dos seus desfiles (mais recentemente o vencedor de um Brit Award Tom Odell) e faz pequenos concertos na flagship da marca em Londres, como também lançou a Burberry Acoustic, uma iniciativa pensada para mostrar jovens artistas. «Quando se começa a juntar a música com a moda, dá-nos energia e atitude», afirma. «A Burberry Acoustic nasceu do simples facto de que as pessoas estão sempre a colocar questões sobre isso. A ideia era dar aos jovens artistas um espaço comum e permitir-lhes interagir com mundos diferentes – moda, passerelle, fotografia. Eles fazem tanto parte do nosso mundo como nós do deles», acrescenta.
Para o designer Tommy Hilfiger, «a música e a moda estão inextricavelmente ligados. As minhas maiores fontes de inspiração enquanto estava a crescer vieram do estilo único das lendas do rock – capas de álbuns dos Beatles e de Jimi Hendrix inspiraram algumas das minhas primeiras criações. As minhas roupas sempre foram clássicas, de estilo preppy mas com uma atitude rock’n’roll».
Hedi Slimane, diretor criativo da Saint Laurent, usou o músico Beck como face da sua coleção de vestuário de homem para a primavera-verão. Atualmente tem uma campanha de publicidade com Marilyn Manson, Courtney Love, Kim Gordon (dos Sonic Youth) e Ariel Pink com algumas das peças da Saint Laurent. Para Slimane, que no mais recente desfile para senhora colocou na passerelle coordenados inspirados no grunge da Califórnia, este é apenas o mais recente exemplo de uma fixação a longo prazo. No seu anterior emprego como designer da Dior Homme, Slimane inspirou-se nos músicos skinny como Pete Doherty e Carl Barât para transformar a forma como os homens se vestiam, tornando a silhueta mais esguia e fazendo com que os fatos justos rapidamente fossem replicados na indústria.
Mas não são apenas as marcas de moda que beneficiam desta relação – as carreiras dos músicos foram ajudadas pela exposição dada por um designer. A passagem da música “Video Games” de Lana Del Rey a fenómeno viral foi acelerada pela sua utilização no desfile da primavera-verão 2012 de Christopher Kane e ela é agora uma estrela mundial, com dois Brit Award, uma campanha para a H&M e uma bolsa da Mulberry com o seu nome.
«Vemos cada vez mais marcas a ligarem-se à música de forma fantástica para criar coleções», destaca Crane. «Um número crescente está a usar performances ao vivo nos próprios desfiles, o que é uma ótima forma de expressar as influências», acrescenta.
Andrew Bolton, curador da exposição “Punk: Caos to Couture” do Instituto do Traje que abre no próximo mês no Metropolitan Museum em Nova Iorque, revela que «a música está fortemente associada com a cultura jovem e a maior parte da inovação na moda nos últimos 60 anos veio realmente da juventude e da cultura de rua. O punk, em particular, é um bom exemplo de quando a moda e a música colidem para expandir as fronteiras da moda e mudar completamente a visão».
Lauren Santo Domingo, cofundadora da retalhista de moda on-line Moda Operandi, explica que «as décadas são definidas pelos seus movimentos musicais e imortalizadas pela moda». Basta pensar, por exemplo, no glam rock, nos novos românticos, no punk e no hip-hop: géneros musicais onde o estilo do artista é tão distinto quanto o seu ritmo. Ou pensar nas atuações deste ano no Coachella – Bat for Lashes, Franz Ferdinand (que trabalharam na campanha de 2010 da Lady Dior) e os Yeah Yeah Yeahs (cujo vídeo mais recente tem a modelo britânica Lily Cole) – com o seu estilo teatral que, no caso das cantoras dos Bat for Lashes, Natasha Khan, e dos Yeah Yeah Yeahs, Karen O, se traduz pelo uso de grandes franjas, capas e collants de cores vivas.

Fonte: Financial Times