7 de mai de 2013

A supremacia do camuflado


Inspirado pelas imagens que enchem os ecrãs de televisão com conflitos ou apenas pelo seu valor estético e múltiplas variações, o camuflado está de regresso em força ao guarda-roupa dos homens, juntamente com os casacos de piloto, sempre em variações mais leves e modernas.

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A supremacia do camuflado
Quando se abre um jornal ou se entra num website, a possibilidade de encontrar uma notícia sobre a guerra na Síria, a postura agressiva da Coreia do Norte ou a retirada das forças militares do Afeganistão é grande. O mesmo se passa nas páginas brilhantes das revistas de estilo dedicadas aos homens, com as virtudes do estampado camuflado estampadas em múltiplas fotos e coordenados.
E mesmo as lojas aderiram ao estampado típico das fardas militares. Há os casacos desportivos, os cardigans em caxemira e as sapatilhas da Valentino, o casaco ou a camisa de manga curta em camuflado da Comme des Garçons, as malas Camden, os slippers estampados e as carteiras da Jimmy Choo e os blazers, t-shirts e óculos de sol da Topman.
Com efeito, da praia ao estilo mais clássico (como os laços formais estampados da Lanvin), toda a vida de um homem pode ser vivida em camuflado. A marca americana Jack Spade até lançou um relógio com este estampado. «A camuflagem não é só uma das maiores tendências da estação, é também uma das que mais vende», afirma Darren Skey, diretor de vestuário de homem nos grandes armazéns Harvey Nichols. «O estampado camuflagem tem vindo a regressar ao guarda-roupa dos homens mas de repetente atingiu um ponto crítico», acrescenta.
«Foi puramente decorativo e de forma alguma política», justifica o criador Dries Van Noten em relação à utilização do estampado em quase todas as peças da sua mais recente coleção para homem. «A camuflagem pode ser transformada em tanta coisa e foi exatamente isso que tentamos fazer: puxar pelo seu potencial gráfico, distorcer o padrão, estampar o motivo em vários tecidos para criar uma ilusão ótica. Não nos focamos muito na sua habitual associação militar. Queríamos que o padrão se destacasse por si só», aponta.
Tom Kalenderian, vice-presidente executivo dos grandes armazéns Barneys New York, considera que «o camuflado é um estampado essencial no vestuário de homem. Faz lembrar imagens de caça e campismo, para além das óbvias associações militares».
Joshua Brown, um consultor de 28 anos do Citi, diz que «é uma forma fácil de parecer cool. O estampado camuflado acrescenta imediatamente uma certa ousadia ao vestuário casual mas não de uma forma assustadora. Acho que é uma afirmação de estilo rock que se tornou mainstream da mesma forma que ir a Glastonbury ou ter uma tatuagem».
Humberto Leon, codesigner em parceria com Carol Lim da coleção forte em camuflados da Kenzo, explica que «vivemos a viajar entre Nova Iorque e Paris e quisemos combinar essas sensibilidades urbanas no vestir com a imersão sensorial nas selvas do sudeste asiático que visitamos recentemente».
Pierpaolo Piccioli, da Valentino, que com a codesigner Maria Grazia Chiuri também colocou o camuflado no centro da mais recente coleção para homem da marca, indica que «o ponto de partida da coleção foi a combinação de diferentes materiais, texturas e cores. O padrão camuflado surgiu da sobreposição de todas essas combinações de tecidos. O design é tradicionalmente um padrão muito masculino e será sempre visto como um símbolo de força e masculinidade. A nossa abordagem do estampado foi torná-lo moderno e usável em situações do dia a dia».
Ainda assim, como reconhece Kalenderian, o camuflado dos pés à cabeça deve provavelmente ser evitado, para não ser confundido nem com um veterano do Vietname nem com uma reminiscência das guerras de contracultura. «Para mim, o camuflado é melhor como acessório, apenas como uma peça de afirmação», sublinha.
Skey, da Harvey Nichols, concorda. «Penso que a tendência pode abranger todos os segmentos etários dependendo de quanto usa», refere. «Para os mais ousados, penso que funciona bem misturado com outros estampados mas para a maior parte dos homens penso que a camuflagem é melhor circunscrever-se a uma única peça, seja um saco ou uns sapatos – e misturado com cores mais neutras». Por outro lado, afirma Dries Van Noten, «para mim, se parece bem e a pessoa se sente bem… porque não?».
Mas a obsessão militar no verão não se fica pela camuflagem e trouxe também o casaco de piloto, visto pela última vez em 1989. Desta vez foi atualizado com estampados ousados, tecidos luxuosos e, em muitos casos, um certo toque distinto dos anos 70. Este tipo de casaco está intermitentemente na moda desde a I Guerra Mundial, quando os pilotos os usavam para se manterem quentes em cockpits abertos.
Tradicionalmente feito em couro ou pele de carneiro, o casaco original era pesado em comparação com os atuais, que são apelativos como casaco de meia estação.
Tiveram um percurso longo desde os dias de poliamida com enchimento dos anos 90, com padrões ousados e materiais leves e luxuosos como os da Alexander McQueen ou os inspirados no estilo dos anos 70 de Miko Spinelli. Para quem não está pronto para abraçar o retro, pode recorrer aos casacos de piloto mais conservadores com misturas de algodão e linho da Hentsch Man ou o estilo clássico em malha da Missoni.
«As formas deste casaco são incrivelmente versáteis e podem parecer muito fortes como uma camada por baixo de um sobretudo de corte clássico, assim como ser o casaco perfeito para a primavera, quando o tempo fica mais quente», considera Reece Crisp, comprador de vestuário de homem nos grandes armazéns Selfridges. O designer Jonathan Saunders afirma que «o casaco de piloto é uma peça clássica, mas com uma abordagem mais elegante, como os da minha coleção de verão, pode fazer com que todo um coordenado pareça elegante e complementa realmente umas calças ou calções justos clássicos».
Existirá alguma idade limite neste estilo? Toby Bateman, diretor de compras no retalhista on-line Mr. Porter, diz que não. «É apenas preciso adaptar o estilo à idade. Um homem mais velho pode ficar fantástico com um casaco de piloto em camurça. Os homens mais novos podem experimentar mais com estampados se quiserem», explica.
 
Financial Times