5 de mar de 2012

TRADIÇÃO PARA VENCER


Os designers de moda indianos, conhecidos pelas suas sedas brilhantes e tecidos ricamente trabalhados, têm de se manter fiéis às suas raízes e aproveitar essas forças, juntamente com a fantástica atenção ao detalhe, para serem reconhecidos mundialmente, mas sem esquecer o seu pujante mercado interno.
 
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Tradição para vencer
 Um pouco mais de uma década após a Índia ter albergado a sua primeira semana de moda, a sua indústria, a dar os primeiros passos, está a tentar entrar no mercado mundial. Mas mais de 80% dos consumidores são ainda do país, onde o rendimento disponível aumentou. «Se pegarmos na nossa sensibilidade e na nossa cultura e acrescentarmos uma dose de loucura, essa é a resposta para o futuro da moda indiana», destaca Valaya. «E penso que há um enorme mercado de todo o mundo. Enorme», acrescenta. 
Embora os têxteis, bordados e tecidos sejam importados da Índia há anos, os designers indianos têm ainda dificuldades em chegar às passerelles das semanas de moda de Paris, Milão ou Nova Iorque. Os criadores do país tentaram enveredar pelos designs ocidentais mas há poucas histórias de sucesso. Uma das exceções é Manish Arora, conhecido pelas suas roupas psicadélicas. Estreou-se na Semana de Moda de Paris em 2007 e já vestiu Kate Moss e Rihanna, entre outras.
«O problema com os indianos é que pensamos que fazemos ótima roupa de cerimónia, pensamos que fazemos um ótimo vestido, algo que vai chegar às páginas das revistas mas que não irá permitir desenvolver o negócio como um todo», sustenta Valaya, à margem da primeira edição do ano da Semana de Moda de Nova Deli. «O que temos são saberes artesanais. O que temos são tecidos, tecelagens e temos de os aproveitar, é a nossa força», acrescenta.
Ele próprio tradicionalista, Valaya é conhecido pelos seus requintados enxovais de noiva, misturando elementos da cultura e história com um estilo contemporâneo. A sua coleção de pronto-a-vestir, influenciada pelo Império Otomano, encerrou a Wills Lifestyle India Fashion Week, em Nova Deli, no dia 19 de fevereiro.
Numa indústria de moda cada vez mais globalizada, há uma mudança percetível em direção ao Leste, que Valaya atribui aos mercados emergentes da Índia e da China. «O foco está agora a mudar para esta parte do mundo – China, Índia», afirma. «Estão prontos para novas coisas… essa será uma mudança de paradigma e é nisso que nos devemos centrar», sublinha.
Há duas décadas atrás, Valaya estava entre os primeiros estudantes a entrar no Instituto Nacional de Moda e Tecnologia em Nova Deli, uma ação pouco usual numa altura em que o design era considerado pouco diferente da alfaiataria. «A maior parte das pessoas pensava que era um instituto de alfaiataria», revela. «As pessoas não conseguiam compreender o conceito de ter o nome de uma pessoa numa peça de vestuário», explica.
Mesmo agora, a moda indiana de topo, que emergiu após a liberalização do país nos anos 90, continua reduzida. Representa cerca de 0,3% do valor da indústria internacional, segundo uma estimativa da Associação de Câmaras de Comércio e Indústria da Índia (Assocham).
Mas a Índia registou um enorme aumento do mercado de vestuário para casamento, que se transformou numa indústria milionária, que a Assocham acredita que deverá ultrapassar os 110 mil milhões de rupias (1,67 mil milhões de euros) em valor até 2020. Atualmente, esta indústria está estimada em cerca de 55 milhões de dólares em 2007 e cerca de 150 milhões de dólares.
As classes média e alta, com uma riqueza e orçamento disponível em crescimento, estão a criar grandes oportunidades para os designers. Mesmo os homens estão a tornar-se conscientes da moda e dispostos a experimentar. «Os homens mudaram muito. Quando comecei a minha carreira, todos casavam em fatos de três peças e agora são pavões, querem competir com a mulher», afirma Valaya, referindo-se à atual tendência de casamentos luxuosos e vestuário de designer.
Com a Índia a tornar-se num mercado em crescimento para as marcas de luxo, os designers enfrentam a concorrência no seu mercado interno das grandes casas de moda que penetraram no mercado e vendem produtos feitos para agradar aos gostos indianos como o sari da Hermès e a clutch Chandra da Jimmy Choo.
Mas Valaya vê a maior parte da concorrência no pronto-a-vestir, não na alta-costura, com marcas internacionais como Mango e Zara disponíveis no país. «Todas as marcas de pronto-a-vestir que conseguirem, vão vir para o país e o que oferecem é uma ótima qualidade, um grande mix de produtos e preços fantásticos», destaca. «Se os designers indianos não acordarem, vão trabalhar para casas de exportação. Por isso têm de fazer coisas diferentes, mas relevantes», conclui.

Fonte: Reuters