21 de abr de 2012

Da passerelle ao museu


Considerada por muitos como um verdadeiro génio no mundo da moda, Rei Kawakubo “trocou” a passerelle pelo museu. A coleção primavera-verão 2012 da marca Comme des Garçons está exposta no Museu Galliera, em Paris, numa mostra vanguardista bem à imagem da criadora japonesa.
 
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Da passerelle ao museu
 Desde que causou um verdadeiro terramoto no mundo da moda em Paris, já no ano de 1981, Rei Kawakubo tornou-se uma figura de culto e os convites para os desfiles da sua marca Comme des Garçons são tão preciosos como ouro.
Por isso, é um raro privilégio ser capaz de ver não só um ou dois modelos mas a coleção completa para a primavera-verão 2012, mostrada na passerelle em outubro passado. «Penso que é provavelmente a primeira vez que exibimos uma coleção completa que é tão recente, não uma retrospetiva», afirma Olivier Saillard, diretor do Museu Galliera, o museu de moda de Paris.
Saillard ficou impressionado no desfile, que Kawakubo intitulou “Drama Branco” porque todas as peças são em tons de branco e creme e imediatamente pediu a coleção emprestada.
O Galliera está fechado para renovação, por isso Saillard está a explorar outros locais para montar as exposições, incluindo o novo complexo de artes e design ousado Les Docks, perto do Sena, que se presta a uma apresentação de vanguarda em consonância com as roupas da criadora.
Kawakubo mostra-se relutante em comentar as suas criações. «Tal como todos os grandes artistas, ela prefere que sejam as pessoas a olhar para o trabalho dela», afirma Saillard, «mas disse que Drama Branco se refere a todas as fases importantes na vida – nascimento, adolescência, casamento e morte».
As 33 peças que a coleção inclui são apresentadas em pequenos grupos dentro de bolhas de ar futuristas em plástico transparente para proteger as peças mas que permitem examinar as criações sob todos os ângulos, mesmo que não possam ser tocadas. Bem longe do ritmo frenético de um desfile que acaba em minutos.
A construção intricada e o trabalho manual estão mais perto da alta-costura do que do pronto-a-vestir: mangas de quimono alongadas, quase a tocar no chão, cascatas de flores artificiais nos ombros como capas ou juntas em bouquets para formar uma saia.
Alguns dos vestidos têm gaiolas de crinolina com aros revestidos de cetim. Um jumpsuit em lã creme está pintalgado com grafitis em preto e branco ou "tagging", como é conhecido em Paris, numa homenagem à rebeldia adolescente.
Estranhas, do outro mundo, estas criações quase monocromáticas, com chapéus extravagantes assinados por outros artistas, têm, sem dúvida, a assinatura de Kawakubo, embora Saillard insista que a sua coleção seguinte, para o próximo inverno, é «completamente diferente».
Mas mesmo a própria designer admite que o seu vocabulário é limitado: «infelizmente, as minhas coleções tendem a estarem concentradas e focadas em muito poucas ideias e esse é um problema comercial. Tento conseguir mais variedade mas não consigo nem devo. Não é a minha maneira», disse ao então editor da Harpers & Queen, Nicholas Coleridge, em 1988.
É precisamente a sua integridade artística e dedicação à criatividade, não contaminadas por motivos comerciais, que Saillard mais admira. E vai mais longe dizendo que «não houve uma má coleção da Comme des Garçons em 40 anos» desde que ela criou a marca e considera o Drama Branco «tocante em termos poéticos e espirituais. Ela é uma das mais fundamentais “autoras” da moda contemporânea».
Nem toda a gente aprecia a sua estética radical e austera, contudo. A revista WWD apelidou uma vez os seus designs e os do seu compatriota Yohji Yamamoto de «o visual da senhora do saco de Hiroshima».
Os visitantes da exposição, que decorre até 7 de outubro, poderão tirar as suas ilações.

Fonte: AFP