17 de mar de 2013

Roupa que vale pela marca


Os últimos desfiles da Semana de Moda de Paris deixaram muitas críticas no ar sobre a forma como as marcas, nomeadamente a Saint Laurent de Slimane, usam a sua notoriedade para vender as coleções, apesar de nem sempre as suas propostas estarem ao nível da insígnia que ostentam. 

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Roupa que vale pela marca
As críticas estão bem expressas num artigo de Cathy Horyn, crítica de moda do jornal The New York Times, que começa por afirmar que «às vezes pensamos, no final de uma época de desfiles, que a moda estaria melhor se as empresas não tivessem marcas para vender».
E dá o exemplo da Saint Laurent. Uma das primeiras coisas que o novo diretor criativo, Hedi Slimane, fez foi retirar o “Yves” da marca, afastando assim uma ligação simbólica com o fundador e tudo aquilo que ele representa, como bom gosto e poder feminino. Mas foi também um teste à atratividade duradoura da marca. Quem precisava da palavra extra quando Saint Laurent está virtualmente alojado nos ouvidos das pessoas?
Slimane esteve no centro das conversas na Semana de Moda de Paris, ou pelo menos nos seus últimos dias, sobretudo porque mostrou uma coleção grunge de vestidos baby-doll e camisas de flanela. As opiniões variaram muito. Muitas pessoas disseram que as roupas pareciam saídas de uma loja como a Topshop ou um bazar, enquanto outros defenderam a abordagem de Slimane e identificaram peças, como um casaco em pelo cor de rosa, que remontam aos designs de Yves no final dos anos 60 e início dos anos 70, quando retirou ideias da rua. «É duvidoso que os clientes façam essa ligação, mas alguns comentários servem para validar o que Slimane fez», refere Cathy Horyn.
«E a controvérsia é boa para Saint Laurent», afirma. «Mas sobretudo ficou claro quão forte o nome é. Em termos de design, as roupas têm consideravelmente menos valor que uma caixa com etiquetas da Saint Laurent. Sem a etiqueta, os vestidos grunge de Slimane não chamariam as atenções nem despertariam interessa – porque não são especiais. Mas uma caixa de etiquetas vale um milhão», destaca.
Já a Hermès, na opinião da crítica de moda, apresentou-se em acentuado contraste com o desfile de Saint Laurent e «os seus valores preguiçosos». Desde os primeiros coordenados que entraram na passerelle, construída numa biblioteca de escola perto da Sorbonne, percebeu-se o que o verdadeiro design esteve em trabalho e que a Hermès não descansa “à sombra” do seu prestígio. «Foi uma das melhores duas ou três coleções em Paris e talvez de toda a estação de pronto-a-vestir», sustenta, e «pelo simples facto que alguém na Hermès recusou deixar que a moda ultrapassasse as roupas». Pode ver-se elementos dos designs inovadores de Martin Margiela para a casa de moda, num ou dois coordenados com calças e num vestido austero em lã com decote em V com uma camisa sem gola branca, mas mesmo a sua moda não pode entrar. 
«Alguém fez incríveis bons julgamentos: em relação ao ajuste, às proporções, o uso seletivo de estampados em seda, a beleza natural das modelos. Christophe Lemaire é o designer de senhora na Hermès, mas as últimas coleções tenderam a ser sobrecarregadas em volume e cor – longe da precisão desta».
Horyn considera que não houve subserviência à marca no desfile, a não ser com um casaco em camurça e pelo de bezerro. «Sabia-se que era Hermès porque Hermès é suposto representar o bom gosto, e ali estava uma moderna expressão disso».
O bom gosto não tem de parecer velho ou burguês, destaca. Nem tem de gritar luxo. De facto, nem devia. Na Hermès, ficou contido num equilíbrio de cortes impecáveis e texturas rústicas, como casacos em pelo de cabra e num conjunto de peças, como cachecóis em caxemira ou uma blusa usada com uma saia comprida em couro, que deve tanto à simplicidade como à atitude da mulher que a usar.
As coleções de outono fecharam com um desfile “em grande” de Marc Jacobs para a Louis Vuitton e um visual fresco da Miu Miu. Estas são realmente coleções de autor, com o gesto da moda normalmente exagerado, como a silhueta extra-longa da Miu Miu (graças a cardigans giros, justos ao corpo, usados com saias compridas em seda estampada com botas) e uma série de casacos médios com pintas. A silhueta fez a coleção.
Jacobs recriou o ambiente glamoroso de um hotel, ou melhor, da atitude das mulheres a entrarem e saírem de diferentes quartos, aparentemente com a sedução em mente. «Embora a maior parte da sua audiência tivesse o sono em mente (Jacobs usou pijamas), esta coleção foi de facto convidativa, com alguma roupa interior bonita misturadas com casacos severos e carteiras tipo puff», conclui Cathy Horyn. 
Fonte: NY Times