5 de dez de 2012

O preço da criatividade

Não é acessível a todas as bolsas, mas a moda de autor não é cara. Pelo menos é o que asseguram os criadores portugueses, que destacam atributos como a qualidade dos materiais, a criatividade das peças, o processo de desenvolvimento e a sua durabilidade para justificar os preços praticados.
dummy
O preço da criatividade
 Em conversas de amigos ou até em círculos mais profissionais no mundo da indústria da moda, o preconceito de que a moda de autor é cara está, muitas vezes, presente. São muitos os consumidores que nem se atrevem, sequer, a entrar numa loja de um criador, receando os preços que podem pagar por umas calças ou uma simples t-shirt.
«As pessoas pensam que é muito cara, mas garanto que não é», afirma Anabela Baldaque. «Quem diz que é cara não está muito a par das coisas. Porventura pode, às vezes, tornar-se um bocado inacessível, ou as pessoas pensam que é assim, mas sinceramente acho que é o preço justo, porque temos um tecido caro, temos uma confeção primorosa e peças quase exclusivas», acrescenta. Uma visão partilhada por Felipe Oliveira Baptista, que considera que a moda de autor «é cara porque há um processo de desenvolvimento que custa muito dinheiro e são materiais muito nobres», dando o exemplo da sua mais recente coleção, onde se destacaram as peles contra-coladas com jersey.
«O problema não é a moda ser muito cara, é as pessoas não poderem comprar os produtos que têm um preço justo», sublinha João Branco, da dupla Storytailors. «O que acontece é o seguinte: num determinado país, o comum dos mortais devia ter poder de compra para os produtos produzidos no seu país. Mas nos dias de hoje o português não pode aceder a produtos produzidos em Portugal porque não tem dinheiro para os pagar. Porque tudo em Portugal é caro, o país já está muito sofisticado», explica o criador.
Na loja dos Storytailors, em Lisboa, os espartilhos a 500 euros parecem uma “pechincha” para os estrangeiros, sobretudo turistas, que visitam a loja. «Em Paris, em Londres ou em Nova Iorque não custam 500 euros, custam de 1.500 euros para cima», afirma a outra metade dos Storytailors, Luís Sanchez. «O cliente que nos visita sabe que há uma determinada tipologia de peças que não vai conseguir encontrar por menos de 1.500 ou 3.000 euros e quando chega à Storytailors e vê um espartilho a 500 euros, acha acessível», indica Sanchez, para quem o desconhecimento é também um entrave à venda de moda de autor: «muitas vezes o facto de as pessoas associarem a marca a produtos mais sofisticados faz com que estabeleçam uma limitação – nunca visitaram a loja nem sabem os preços praticados, nem que outros produtos existem. É instintivo».
Para Diogo Miranda, cujas criações estão à venda numa loja própria em Felgueiras por valores entre os 200 e os 1.500 euros, o preço não tem sido impedimento e, embora a famigerada crise afete o negócio, a procura não tem diminuído significativamente. «Neste momento não me posso queixar, estamos com uma faturação mensal maravilhosa. Obviamente que o cliente médio, dos seus 200 a 280 euros, deixou de comprar ou então, se compra, pensa duas vezes. Já o cliente dos 1.000 a 1.500 euros pensa duas vezes, mas compra. O cliente médio desapareceu um pouco mas o cliente de gama mais alta está a aparecer», revela o jovem criador. Isso não impede que Diogo Miranda tente abranger o máximo de clientes possível para as suas criações de senhora. «Tentamos fazer uma coleção em que ofereça peças para toda a gente: tanto temos uma saia básica, como temos uma saia mais sofisticada – obviamente que os preços são diferentes, que é para tentar atingir o máximo de clientes», explica.
Muitos criadores referem a moda de autor como um investimento. «A ideia da roupa de autor é que a pessoa compre uma peça e não seja algo que se deite fora passado seis meses», refere Felipe Oliveira Baptista, cujas criações, à venda sobretudo em França e na Ásia (Portugal ainda não tem nenhum ponto de venda), rondam muitas vezes os 1.500 euros. Já a criadora portuense Anabela Baldaque revela que «tento apresentar ao meu público uma abordagem pela roupa mais intemporal, portanto, que não seja uma compra louca, para apenas um momento, mas que se estenda pela vida fora. Portanto, quase que se torna uma compra por excelência»..
Seja cara ou não, consoante a visão de quem avalia, Manuel Alves (da dupla Alves/Gonçalves) é perentório: «é cara como toda a moda de autor em todo o mundo é cara, porque os custos associados são enormes. Não podemos ter o mesmo preço que uma marca qualquer sem dimensão, sem a visibilidade que nós temos, sem o investimento, ao fim destes anos todos, que fizemos numa marca – não pode ter o mesmo valor que uma marca de rua que surja agora. É impossível, porque foram muitos anos de investimento».

Fonte: Portugal Têxtil