3 de out de 2013

Moda transparente

O designer belga Bruno Pieters, ex-diretor da Hugo Boss, criou uma marca de moda de luxo completamente transparente, onde a informação sobre os custos e a proveniência das matérias-primas é disponibilizada, tal como as peças da coleção, na Internet.
 

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Moda transparente
A marca do luxo é a exclusividade e o mistério, mas o pioneiro da moda belga Bruno Pieters quer mudar a tradição e oferecer aos consumidores de gama alta «compras transparentes de A a Z».
Em 2012, criou a “Honest by”, uma marca de moda apenas na Internet que dá ao consumidor uma visão detalhada da cadeia de aprovisionamento de um produto que pode percorrer todo o mundo, apesar de Pieters favorecer o local.
No mundo normal da moda, «pode vender-se um vestido de 50 mil euros sem se estar consciente que o produto foi fabricado por uma criança», refere Pieters. «No mundo da moda, poucos se questionam», sublinha.
Mas a questão tornou-se premente após o colapso catastrófico de uma fábrica de vestuário no Bangladesh ter matado 1.100 pessoas em abril. O acidente chocou os consumidores, colocando na ordem do dia as muitas vezes más condições para os trabalhadores do vestuário e, esperam os ativistas, poderá criar um desejo de conhecer todas as ligações na cadeia mundial de aprovisionamento.
Na “Honest by”, ao clicar numa peça de vestuário surge uma longa lista, com as matérias-primas e as operações realizadas para tornar a camisa ou o fato possível, preços incluídos.
O cliente «pode verificar a origem dos materiais, onde o vestuário é produzido e a que preço», explica Pieters, no centro do seu atelier, bem no meio de um bairro chique em Antuérpia, o principal centro comercial da Bélgica e casa de um dos principais portos.
Ao clicar numa túnica em seda verde, o consumidor, confortavelmente sentado em casa, vê não só de onde vem o tecido, mas também a origem dos botões, da confeção e das etiquetas.
No total, a túnica custa 225,87 euros em comparação com um custo de venda por grosso de 69,14 euros. O valor acima, claramente indicado no website, é o lucro da empresa por criar o artigo.
«Já não funciona que as empresas produzam na China e coloquem uma etiqueta a dizer “Made in France”», considera Pieters. «A transparência será, em breve, inevitável para o negócio do luxo porque a única razão para pagar os preços é a qualidade e o know-how», acrescenta.
Pieters, de 38 anos, é um refugiado da alta moda. Ex-diretor na Hugo Boss, saiu em 2009, amargurado com os princípios que afirma governarem a indústria dos artigos de luxo.
Mas a decorar as paredes do seu estúdio estão cores fortes e ângulos curtos mais associados com as passerelles de Paris do que com lojas de comércio justo. «É possível ser responsável e fazer algo mais do que linho e bege», acredita Pieters.
O designer fez uma pausa de dois anos do mundo da moda antes de criar a sua empresa e insiste que, apesar de se ter tornado vegetariano, não é um ativista.
«Estou só a criar o que gostava de comprar», afirma. «Do meu tempo na alta moda, aprendi o poder dos consumidores, cujos humores são escrutinados e analisados de perto por centenas de especialistas. A moda, que por definição lidera a multidão, é uma boa forma de mudar as coisas», sustenta.
A “Honest by”, cujo nome é um jogo de palavras que sugere comprador honesto, foi abordada pela Organização Internacional do Trabalho, que pretende uma parceria numa campanha contra o trabalho infantil.
Mas a “Honest by” não é um negócio de grande escala, produzindo cerca de 1.500 peças desde o seu lançamento, expandindo-se apenas ao convidar jovens criadores para também vender no website.
Pieters revela que 20% dos seus lucros realizados com colaborações com designers vão para ações de solidadriedade, mas a empresa no geral ainda não deu lucro. O designer recusa-se, contudo, a dar os números das vendas. A transparência no negócio «significa publicar os lucros, mas isso não tem interesse, a não ser para os acionistas», conclui.

Fonte : AFP